Felipe-Pasini

Felipe Pasini

Jornalista Cinematorgráfico, Mestre em Ciências Ambientais e Conservação

Qual é minha motivação para fazer o LIFE IN SYNTROPY e quais os pontos fortes que eu trago para este projeto?

Acho que a resposta para as duas perguntas estão na história que me trouxe até aqui.

Em 2006, conheci o trabalho de Ernst Götsch por meio de textos e artigos no agrofloresta.net. Naquele tempo, eu já sabia que algumas experiências agroecológicas e agroflorestais de sucesso no Brasil podiam ser rastreadas até chegar a ele. No ano seguinte participei de um de seus cursos. Diferentemente da imagem que foi construída por alguns grupos que o viam como um tipo de guru ou mentor, não presenciei nenhuma referência esotérica, intuitiva ou teleológica. Era uma interpretação bastante coerente do que nos é possível observar do mundo natural, com um arcabouço conceitual bem definido.

Naquela época, eu trabalhava como diretor de uma pequena organização não governamental de produção audiovisual. Pedi ao Ernst para conhecer sua fazenda com a intenção de gravar uma reportagem informal sobre seu trabalho. Poucos meses depois viajei para Piraí do Norte, no sul da Bahia, com duas queridas amigas – Ilana Nina e Mônica Soffiatti –  onde ele vivia com sua esposa e duas filhas. A experiência de poucos dias revelou a minha ignorância no que diz respeito à agricultura e ao meio ambiente, e sobre a aparência que um campo agrícola deveria ter. Eu estava em meio a quase 500 hectares de floresta sistematicamente cultivada, sob rigorosos critérios técnicos, econômicos e filosóficos, onde cada pergunta era respondida de forma a explicar o equilíbrio entre essas dimensões. Quase tudo que comi durante aqueles dias, nunca havia experimentado na vida. A maioria eram frutas, raízes e folhas da Mata Atlântica e da Amazônia. O lugar não era uma floresta tal como eu conhecia. Eu estava em um sistema agrícola que funcionava sob uma lógica diferente daquela que aprendi na escola, e cujo resultado era visível no campo, na mesa e no bolso (já que sempre havia o que vender).

Nessa mesma viagem conheci os trabalhos de Henrique Sousa e de Jurandir. Nas três experiências vi a concretização imediata de um novo tipo de agricultor, longe dos estereótipos culturalmente reproduzidos e associados ao sofrimento, à miséria e ao trabalho duro. Em suas rotinas não só se via contemplada a segurança alimentar e de qualidade, como também o lazer, a renda e a educação, preenchendo lacunas tão necessárias quanto sutis no meio rural.  Aqueles agricultores compartilhavam outras relações com suas terras e suas atividades. Sentimentos que conhecia por definição, mas não na prática. A visita rendeu o minidocumentário Neste Chão Tudo Dá que foi exibido pela TV Escola durante seis anos, e tornou-se material didático recomendado pelo MEC à rede pública de ensino.

De 2008 a 2015, coube a mim documentar a implantação de um projeto pioneiro de cultivo de dendê em sistemas agroflorestais orgânicos, na Amazônia. O desenho original das áreas de plantio contou com a validação de Ernst juntamente com um convite para definir o manejo dos primeiros anos do projeto. Ao longo de três anos estivemos juntos no Pará, seja para documentar a evolução das áreas e as indicações técnicas, seja em atividades paralelas como capacitações e visitas técnicas. Os encontros sucessivos resultaram não apenas no conforto crescente diante da câmera, mas também na conclusão de que a linguagem audiovisual era uma tecnologia adequada para o registro daquele processo.

Em 2011 nasceu o projeto Agenda Götsch, uma parceria minha com a jornalista e companheira Dayana Andrade e com o próprio Ernst Götsch e sua família. O objetivo era registrar em vídeos e textos a recuperação de uma área degradada em sua fazenda na Bahia, que seria implantada e manejada exclusivamente por ele. Desde o início do projeto tínhamos o desejo de democratizar as práticas desenvolvidas por Ernst e, para isso, optamos por suprimir as motivações filosóficas da narrativa para que a mensagem tivesse maior efeito didático. Uma de nossas conclusões foi a de que essas duas dimensões eram inseparáveis, já que a tomada de decisão é resultado de um exercício dialético constante com os elementos do sistema. A riqueza investigativa daquele modelo estava na manifestação prática coerente com seus princípios teóricos. Para nós, jornalistas, tratava-se de um achado raro. Entre 2011 e 2014, viajamos 12 vezes para a Bahia para coletar imagens e entrevistas, as quais resultaram na publicação de um site, 13 vídeos e um trabalho em congresso científico com a descrição da área implantada.

Nesse meio tempo, começamos a acompanhar também os trabalhos que Ernst desenvolvia em parceria com a Fazenda da Toca, no desenvolvimento de modelos de Agricultura Sintrópica para grande escala. O resultado das áreas experimentais chamou a atenção da mídia e comunidade científica até que, no final de 2015, com apoio da própria Fazenda da Toca, reunimos em vídeo um resumo de modelos de pequena, média e grande escala de Agricultura Sintrópica. Esse vídeo foi apresentado durante os eventos paralelos da COP 21, em dezembro daquele ano. A repercussão do filme batizado de Life in Syntropy surpreendeu nossas expectativas – alcançou mais de 7 milhões de visualizações em redes sociais, foi traduzido para 6 idiomas, premiado em festivais internacionais, ganhou salas de aula de escolas, universidades e até apresentação na Capela Sistina no Vaticano no evento “Fiat Lux: Illuminating Our Commom Home”.

O inesperado alcance do vídeo trouxe outras consequências. Em março de 2016, fomos procurados por autores da novela “Velho Chico”, exibida pela TV Globo entre julho e setembro do mesmo ano. Um dos objetivos da trama era fomentar o debate ambiental sobre o rio São Francisco, e propor alternativas para os polêmicos modelos de desenvolvimento da região. Ernst Götsch, Dayana Andrade e eu trabalhamos em parceria com os autores Edmara Barbosa e Bruno Luperi para compor as 189 cenas que trataram do tema.

A crescente exposição do tema despertou a curiosidade de muitos grupos, dentro e fora do universo rural, aumentando exponencialmente os pedidos por informações. O “projeto da sintropia” retratado na novela gerou muita discussão, não só entre os esperados opositores, como também entre os próprios grupos que defendem agriculturas mais sustentáveis. Foi quando percebemos que as fronteiras dos conceitos que fazem parte desse universo ainda podem ser bastante confusas. Tudo isso nos convocou a buscar respostas.

Entre elogios e críticas, a certeza era a de que nos anos de 2015-17 fomos tragados para debates técnicos e conceituais, e obrigados a buscar semelhanças e diferenças entre os mais diversos tipos de agricultura e a nos antecipar a possíveis inconsistências conceituais.

Durante esses anos, participei ativamente desse processo. Um dos resultados foi a confecção da dissertação de mestrado “A Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch: história, fundamentos e seu nicho no universo da Agricultura Sustentável” sob orientação do professor Fábio Rubio Scarano e ajuda do Ernst, na qual trabalho com a dimensão teórica da Agricultura Sintrópica, em um constante diálogo entre ciência e prática.

Finalmente chegamos a 2018 com a consolidação dessa história na plataforma Life in Syntropy.

E os próximos capítulos dessa história estão sendo escritos agora!

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